1) O que podemos entender como Design Thinking?
Design Thinking é uma metodologia de trabalho estratégico. Para um melhor entendimento, design é a espontânea "capacidade humana de tornar tangível uma intenção de transformação". Se essa intenção for estratégica, o processo da ação de design vai transformar o presente em um futuro melhor. Todos nós somos designers espontâneos e intuitivos e todos nós podemos nos transformar em design thinkers.
Ao longo da década dos anos 80, os clientes das empresas de design começaram a entender que os designers tinham algumas habilidades especiais em resolver problemas complexos, que iam bem além do desenvolvimento formal de produtos ou serviços. Os designers são empáticos, intuitivos e capazes de gerenciar processos ambíguos e complexos. Ao mesmo tempo, os designers foram incorporando outras disciplinas e especialistas aos seus grupos de trabalho, para ampliar a sua capacidade de diagnóstico.
No final do século passado, muitas empresas haviam criado suas próprias metodologias de resolução de problemas, aprimorando e sofisticando as metodologias básicas de desenvolvimento de projetos, ensinado nas escolas de design, arquitetura e engenharia. Em 2003, uma dessas empresas, a IDEO, fundada em Palo Alto na Califórnia, chamou seu método de abordagem e resolução de problemas de Design Thinking, cuja tradução mais adequada seria "o pensamento através do design" e não o design do pensamento.
Em uma definição bastante resumida, podemos dizer que Design Thinking é uma forma de pensamento prático compromissado com as necessidades de um empreendimento de uma forma econômica, tecnológica e socialmente possível. Como o design é o exercício da medida do homem no ambiente, o Design Thinking sempre é centrado nas necessidades humanas.
David Kelley, o fundador da IDEO e do d.school de Stanford além de inventor do termo, costuma dizer que ele é um especialista em metodologia, ao invés de um cara que projeta uma cadeira ou um carro novo. Enfim, David Kelley, um sucesso como profissional e acadêmico, ajudou a popularizar o Design Thinking, que vem sendo usado por todos que entenderam o processo, ou que já o praticavam independente do nome. Como observação, no Canadá o Design Thinking foi rebatizado como Business Design e é ensinado em universidades de administração.
2) Quais são as principais etapas que envolvem o Design Thinking?
As etapas do Design Thinking que a d.school ensina em Stanford são: Entendimento, Observação, Definição, Ideação, Prototipagem e Teste. As etapas estão bastante compromissadas com os valores humanos, como a usabilidade e a desejabilidade, se é que essas palavras existam, do processo de resolução do problema. Outras empresas nomeiam ou dividem a metodologia diferentemente, mas com a mesma intenção processual.
Uma das características do Design Thinking é a sua prática não linear. Mesmo que, em teoria, o processo seja dividido em etapas, muitas vezes essas etapas seguem paralelas e simultâneas. Em nenhuma etapa do trabalho a necessidade do Entendimento ou Observação deixam de existir. A prototipagem, definida como uma etapa do DT, na verdade pode e deve ser praticada ao longo de todo o processo. Costumamos também usar um processo de iteração de ir e voltar, como nas pesquisas científicas.
Nos projetos da AnimusO2, costumamos simplificar as etapas em quatro fases: Investigação, Diagnóstico, Solução e Implantação, mas sempre utilizando a prototipagem rápida sequencial e as oficinas colaborativas e/ou criativas durante todo o processo.
3) E o que Design Thinking tem a ver com inovação?
Tudo. Muitos pensadores, acadêmicos ou executivos de grandes empresas já entenderam que não existe inovação sem design. O Design Thinking é uma metodologia comprometida com um futuro melhorado, com a satisfação das evolutivas necessidades humanas e com a valorização das pessoas e organizações. Sua prática sempre busca a realização de idéias novas para solucionar velhos problemas, portanto comprometido na essência com a inovação.
4) Como o Design Thinking pode ajudar pessoas e organizações a serem mais criativas?
Uma enorme vantagem do Design Thinking é que as pessoas não precisam ser designers para serem design thinkers. Basta aceitar a ideia que podemos mudar a forma de pensar. Talvez o maior obstáculo para a mudança individual ou empresarial seja a forma como as pessoas pensam e agem nos dias de hoje.
Roger Martin, reitor da b.school da Universidade de Toronto, argumenta que a as empresas de maior sucesso no futuro, serão aquelas que conseguirem um equilíbrio entre um pensamento analítico e uma originalidade intuitiva, ou seja uma nova forma de pensar um problema. Cada vez mais, é necessário que as pessoas pensem de forma crítica e criativa simultaneamente, assim como é importante ter conhecimentos de finanças, marketing e antropologia.
O Design Thinking, diferente que um pensamento analítico ou racional de um engenheiro, como um dia eu fui, é um processo intuitivo e criativo que cresce através da construção de idéias. Em princípio, não há julgamentos ou medo de fracassar. Um dos mandamentos do DT é que quanto mais cedo você erra, mais cedo você consegue acertar o projeto. A ideia é criar um processo de reconhecimento de padrões ambientais para construir novas possibilidades de estruturas funcionais e emocionais.
5) Tim Brown diz que o design thinking é uma metodologia poderosa para decretar o fim das velhas ideias. Por quê?
Tanto ele, como outros importantes designers, entenderam que a grande missão do design não é a criação de um produto ou a melhoria de um serviço. Mas, ajudar na profunda transformação da cultura de uma organização.
Lee Green, vice-presidente de Valor e Experiência de Marca Global da IBM, disse em Oslo que "o erro mais idiota é ver o design como algo que você faz no final de um processo para consertar uma confusão. Deveria ser o contrário, desde o primeiro dia e fazendo parte de tudo”.
Já o CEO Joseph M. Hogan, da GE Healthcare Technologies, disse que "o design, nos próximos 10 anos, estará além do produto, além do relacionamento entre as atividades do projeto. Hospitais no futuro terão diferentes formas de interação com o paciente. Nós devemos pensar no cenário no qual o design poderá afetar toda a experiência do sistema de saúde.”
O que eu gostaria de enfatizar é que não são mais os designers que falam sobre a importância do design, mas os próprios empresários e empreendedores.
6) O que um produto deve ter para ser considerado realmente inovador?
Um produto inovador precisa conquistar um valor emocional inédito. Porém, a própria formulação dessa pergunta é uma confirmação de que quando se pensa em inovação, imagina-se quase sempre em um produto inovador. Porém, a grande revolução que o DT pode fazer para uma organização, seja ela privada ou governamental, é a implantação de uma nova forma de pensar-e-agir, em novos formatos de negócios. A grande oportunidade dessa metodologia, ainda em construção, é a transformação que ela pode fazer nos processos humanos, principalmente nas empresas de prestação de serviços.
Um dos motivos pelo sucesso da Procter & Gamble na última década foi a incorporação de Design Thinking no próprio DNA da empresa. A jornada da P&G com o Design Thinking começou quando o recém nomeado CEO, A.G. Lafley convenceu uma contadora de talento, Claudia Kotchka a assumir a vice-presidência de Design e Inovação, com a missão de transformar o Design Thinking em parte da cultura corporativa da empresa. Na realidade empresarial da P&G, a inovação se tornou um processo permanente até em áreas tipicamente não criativas da empresa. Os produtos inovadores, foram uma decorrência dos processos operacionais também inovadores.
Rique Nitzsche para 'O Globo'
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