No estabelecimento das organizações sociais mais complexas "as religiões surgiram prometendo uma vida melhor depois da morte", onde "uma ressurreição compensadora" servia de norma para a estruturação da sociedade. A seguir, como tentativa de oxigenação das organizações de base religiosa, surge a novidade 'moderna', mais complexa e onde "as ideologias políticas entenderam que a paciência humana também é frágil e anteciparam a realização de uma vida melhor pela conquista de igualdades sociais. Só que isto jamais chegou a bom termo nem com o capitalismo nem com o comunismo"[i].
Como aponta Lipovetsky ao citar Cornelius Castriadis, o rearranjo social com maior ênfase no indivíduo que vivenciamos hoje, seria fruto de uma “combinação sinérgica de organizações e significados, de ações e valores, que vem se formando a partir da década de 1920 – apenas as esferas artísticas e psicanalíticas a anteciparam em alguns decênios – e que continuou a ampliar seus efeitos depois da Segunda Guerra Mundial”[ii].
O estabelecimento do novo paradigma é mais uma tentativa de construção de um sistema social mais representativo e igualitário, baseado - como prometia as bases iluministas - no homem. Na transição/evolução, ora em curso, do mundo moderno para o 'novo modelo', fica clara "a perceptível e progressiva falência das promessas religiosas e políticas, cujos representantes decepcionam a mais não poder em todas as partes do mundo. Todos os crimes e pecados, que a civilização condena, mostram-se neles, cada vez mais realizados e realizáveis".
Nesse vácuo de uma autoridade ou lógica normativa, a auto-valorização do indivíduo passa a se destacar como a semente de uma nova possibilidade de sistematização das organizações sociais. Assim, com as necessidades do homem como centro das atenções, questões de grande complexidade começam a se estruturar.
Esse rearranjo – em andamento – traz desenhos com características naturalmente contrárias às normas anteriores. Dessa forma, uma questão principal se destaca ao analisarmos alguns dos pilares históricos essenciais de sustentação daquela estrutura.
| técnica e precisão |
| organização e controle |
| convenção e disciplina |
| ideologia e coerção |
| especialização e certeza |
A subjetividade como valor / atributo passa a orientar comportamentos e atitudes. ZUSMAN (2009) aponta que a lógica que sustenta a "drogadição possibilita a pseudo realização imediata daquilo que as religiões e as ideologias políticas prometem para depois. Seu tempo é o do aqui-e-agora". Esse comportamento de características hedonistas[iii] parecem poder servir de base para explicar outras drogas disfarçadas de doenças sociais contemporâneas como a explosão do consumo, da pornografia, das intervenções estéticas, dos antidepressivos, das seitas, da corrupção entre outras.
A disciplina, a ordem, a organização seqüenciada, as metas e as normas de conduta são aspectos estruturais da lógica produtiva anterior que se transformaram em motivo de contestação que ora permeiam as bases da construção social - religião, economia e poder.
Se as promessas que conduziam os paradigmas anteriores se mostraram ineficazes, uma vez que "a espera pelo céu é longa e problemática; pela igualdade e pela paz social, é problemática e longa", parece natural que a contestação daqueles atributos seja a negação daquela lógica. Dessa forma, podemos sugerir que, na rotina dos neodrogaditos sociais a expectativa é aquela que "o barato é de aparição muito mais imediata e só depende da dose. O sucesso da drogadição corre paralelo com a rapidez e a velocidade com que queremos que tudo aconteça, sem sofrimento. A vida parece se tornar mais plena quando se pode alcançar tudo, imediatamente. Parece!"
inovação, incerteza e, eventualmente, sucesso
A crise, de proporções mundiais, expõe a incerteza como um dos novos fatores estruturais da nova lógica de organização humana. A incerteza, no entanto, não é um vilão contemporâneo, pelo contrário, aponta que a realidade é fluida e dinâmica e, portanto, deve se ter uma atitude flexível perante ela.
Como vivenciado, no atual momento de crise econômica, "o medo pesa mais que a esperança. O que verdadeiramente se teme, e nem sempre se sabe, conscientemente, é que a confiança passa a ser sentida, no momento, como um risco inaceitável. Contudo, o problema não reside na confiança em si mesma, mas na sua ampliação desmedida, que terminou por transformá-la em certeza absoluta, como acaba de ocorrer. Em outras palavras a confiança ganhou qualidades onipotentes, aparentemente intrínsecas (...) A este tipo de desempenho dominado por certezas onipotentes é que se dá o nome de estado maníaco"[iv].
Assunção a incerteza, ou seja, a incorporação de rotinas atitudinais mais sujeitas à fluidez externa e interna, pode se traduzir como um pressuposto para a nova economia que se desenha, onde a confiança não deixa de existir, mas passa a se sustentar menos em disciplina e mais em flexibilidade.
Parte daquele estado maníaco, apontado por Zusman, se construía na idéia de perpetuação das forças de poder. Essa lógica pressupõe, em paralelo, clusters de poder mais diluídos, tanto no nível das macro como micro organizações.
a construção pós-industrial
Podemos alocar a sociedade industrial como o conjunto de eventos sociais, econômicos e culturais ocorridos no período entre 1750 e 1950. Nesse período, o foco na razão ajuda a conformar a ciência, que, por sua vez, se torna o suporte para todo o aparato industrial que caracterizou a enorme evolução da civilização humana. Nessa evolução as nações poderosas eram aquelas capazes de produzir bens e serviços em quantidade crescente, no menor tempo possível.
O mundo trabalha em ritmo acelerado, visando a eficiência nas operações de interação entre matéria-prima, fabricação e venda.
Esse contexto, no entanto, que traz a bandeira da civilidade e do desenvolvimento humano, não agrada à todos. Como posto por Marx e Engels (1848, p.8) a estrutura social "moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não suplantou os velhos antagonismos da classe. Ela colocou no lugar novas classes, novas condições de opressão (...)".
Nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, esse processo de incômodo e desaprovação social foi ganhando corpo, principalmente nos meios artísticos e intelectuais. Livros, peças, obras de arte e manifestos artísticos contra os conflitos sociais e armados, conseguiram, aos poucos, alterar as instituições estabelecidas Os conflitos armados e e, aos poucos, acabaram por irradiar e contaminar toda a sociedade ocidental.
Para Bauman (2001) a qualidade líquida da modernidade faz referência ao estado de fluidez e dinâmica das relações contemporâneas. As sociedades urbanas impõe aos indivíduos essa característica de plena flexibilidade, onde o que é material, sólido e durável, passa a não se ajustar às exigências das novas realidades. O mundo é ágil, frenético e descartável.
"Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua condição de existência e suas relações recíprocas". (Marx e Engels, 1848, p.12).
Todas as instituições erguidas pelo homem estão sujeitas à desintegração. Semelhante à natureza que nos alerta esse fato com freqüência, todas, as estruturas de poder, formas de governo, processos de produção e lógicas econômicas que já nasceram, amadureceram, existiram e resistiram por um período e faliram.
A percepção da sociedade pós-industrial começa, marcadamente, no período do pós-guerra, quando a geopolítica ganha um novo formato de integração e interação. Esse novo arranjo é acompanhado de uma grande profusão de novidades tecnológicas, principalmente, na viabilização da comunicação humana.
Aos poucos a construção social vai sofrendo drásticas alterações, representadas pela aumento do setor de serviços - em média 60% da força de trabalho, representando mais que a produção industrial e agrícola juntas. O trabalho de características intelectuais começam a se tornar a base do novo paradigma em conformação.
Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade liquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001
BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Trad. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. Trad. Raul Fiker. São Paulo. Editora UNESP, 1991.
JAMESON, Fredric. O pós-modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 2000.
MARX, K.; ENGELS, F. (1848) O manifesto comunista. Edição Eletrônica de Ridendo Castigat Mores (1999). www.jahr.org.Paulo Reis
[i] ZUSMAN, Waldemar (2009) Drogadição. url:www.blogandocomfreud.blogspot.com, em Setembro de 2009.
[iii] O Hedonismo, derivado do vocábulo grego ‘hedoné’ aponta a busca do prazer como doutrina de vida ou conduta. A busca da liberdade individual atual, surge como contra-ponto ao contexto opressivo trazido pela anedônica estrutura da produção capitalista. Essa característica essencial do ser humano parece se desenvolver com maior intensidade depois do longo período de abafamento que a disciplina excessiva trouxe.
[iv]ZUSMAN, Waldemar (2008) A depressão financeira e suas raízes emocionais. url:www.blogandocomfreud.blogspot.com, em Novembro de 2008.
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